Um breve panorama da literatura gótica

Castelos assombrados, catedrais abandonadas, fantasmas, terríveis aberrações da natureza. A palavra “gótico” nos remete a estas coisas sombrias. A literatura gótica é a literatura do horror, imortalizado em contos como “Frankenstein”, “O Médico e o Monstro”, “Drácula” e “O Corvo”. Mas o horror gótico tem sua origem muito antes destas famosas histórias.

O primeiro conto gótico é geralmente considerado “O Castelo de Otranto” de Horace Walpole, publicado em 1764. De fato, o próprio autor adicionou à segunda edição da obra o subtítulo “Um conto gótico”. A história se passa em um castelo da época medieval, um cenário que viria a se repetir futuramente em diversos livros da literatura gótica, e narra os fatos perturbadores que circundam o lorde Manfred e sua família. O livro inclui fantasmas, pinturas animadas, profecias terríveis e esqueletos falantes. Mais do que isso, trouxe uma nova forma de literatura. Em seu prefácio, Walpole relata ter misturado em sua obra dois tipos de literatura: a antiga, determinada pela fantasia e fatos improváveis, e a moderna, determinada pelo realismo dos fatos e comportamentos. Esse paradigma definiu todo o gênero literário, razão pela qual Walpole pode ser visto como o pai da literatura gótica.

Entretanto, “O Castelo de Otranto” não é o mais conhecido conto gótico aos leitores modernos. Foi no século XIX que surgiram alguns dos livros mais populares da literatura gótica, principalmente na Inglaterra: “Frankenstein” (1818) de Mary Shelley, os contos de Edgar Allan Poe (este americano), como “A Queda da Casa de Usher” (1839) e “O Corvo” (1845), “Great Expectations” (1861) de Charles Dickens, “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” (1886) de Robert Louis Stevenson e “Drácula” (1897) de Bram Stoker. Nesta época a literatura gótica se espalhou pelo mundo, atingindo por exemplo a Rússia, que produziu Nikolai Gogol e seus livros, como a coletânea de contos sombrios “Mirgorod” (1835).

O Brasil também foi fonte de livros de inspiração gótica, no chamado “ultrarromantismo”. São autores como Álvares de Azevedo, que descreviam a morbidez, o sobrenatural e a desolação, manifesta muitas vezes na figura de um amor impossível.

Nem todo livro de horror é gótico, porém. A literatura gótica é definida não só pelo mórbido e sombrio, mas também por uma estética emotiva, ou seja, uma estética que gere sentimentos únicos. Meros relatos macabros não são góticos a não ser que gerem emoções fortes através de seu imaginário. É isso que distingue o horror gótico do horror convencional, que inclusive já existia antes do movimento gótico na figura dos “poetas de cemitério” como Thomas Gray.

O gênero gótico não está morto. Ainda hoje sua influência é sentida, seja de forma direta, seja por meio de paródias. A literatura transcendeu os livros, atingindo o cinema e as artes. Basta apenas observarmos bem, e veremos o gótico ao nosso redor.

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