Em um período de inovação e diversidade na ficção espanhola, a liberdade de parodiar os famosos romances de cavalaria era tudo o que o poeta castelhano Miguel de Cervantes precisava para trabalhar no que seria um dos livros mais importantes da literatura mundial.
O livro “Don Quijote de la Mancha“, publicado em 1605, indica que, após anos de leitura e estudo de romances de cavalaria, o personagem teria enlouquecido, resolvendo tornar-se, fora de época, um cavaleiro andante, que estava fazendo falta ao mundo, para desfazer os agravos, endireitar os tortos, emendar as injustiças, reduzir os abusos e saldar as dívidas. Em síntese, um visionário, que se atribuiu a missão de consertar o mundo. O caso parece ser de doença mental, marcada por ideias delirantes e alucinações, sendo o portador capaz de ser simultaneamente a antiga e a nova pessoa, e viver ao mesmo tempo em seu mundo imaginário e no mundo real.
A história passa-se na Mancha, no início do século XVII, em que reinava na Espanha a Casa de Habsburgo, lá conhecida como a dos Áustrias. Era uma monarquia absoluta, com forte influência da Igreja Católica. A sociedade espanhola da época era rigidamente dividida em classes: o clero, a nobreza, a burguesia e o povo miúdo.
Dom Quixote era cristão velho, sem mistura de sangue. Era um fidalgo letrado, pertencente à pequena nobreza, com uma propriedade rural cuja renda lhe garantia o sustento, sem que precisasse trabalhar. Na pena de Gustave Doré, era um aristocrata, alto e magro, que montava um corcel, o Rocinante. Ao contrário, seu escudeiro, Sancho Pança, era um lavrador baixo e gordo, analfabeto, movendo-se sobre um jumento.
Além disso, Dom Quixote era cônscio dessa desigualdade, reputando-a natural. Não se insurgia contra a monarquia, a Igreja ou a hierarquia social. Os ventos do liberalismo, a reclamar a igualdade das pessoas, só viriam a soprar no século seguinte, já na monarquia da Casa de Bourbon, ainda hoje reinante na Espanha. Diz-se, portanto, que Dom Quixote está bem situado no espaço e no tempo, o que permite aferir a sua normalidade.
Entretanto, tal quadro muda durante as suas aventuras, em que investe contra moinhos de vento, tomando-os por gigantes. Ou quando intervém em favor de galeotes, reputando-os inocentes, em afronta à justiça real. Ou quando dissolve uma procissão de frades, para liberar o andor, que lhe parecia uma dama subjugada. Em tais casos, sobressai uma visão distorcida da realidade, a pautar as suas ações, que então careceriam de mérito, por decorrerem de doença mental.
Para superar o problema, há quem atribua a Dom Quixote a simulação da loucura, para justificar as suas ações. Mas, tal malícia não casa com a pureza de caráter do personagem. Porém, existe uma fronteira nítida entre a normalidade e a doença mental? Machado de Assis, em seu conto “O Alienista”, mostra que tal limite não é objetivo, tanto que vai variando ao longo da narrativa, ao critério movediço do Dr. Simão Bacamarte, quem deveria ou não ser encerrado na Casa Verde, o hospício de Itaguaí. Primeiro, quem apresentava desvios de personalidade e não seguia um padrão, depois quem mantinha a regularidade nas ações e possuía firmeza de caráter. Por fim, como ninguém tinha uma personalidade perfeita, exceto ele próprio, o alienista conclui ser o único anormal e decide trancar-se sozinho na Casa Verde.
A questão não é bizantina. Se doente mental, Dom Quixote não seria responsável por suas ações no mundo real, nem seus méritos lhe poderiam ser atribuídos. Contudo, mesmo que privado de lucidez, em certos momentos, Dom Quixote jamais toma decisões moralmente inaceitáveis, mantendo sempre a sua honestidade.
Louco ou não, quem pode julgar?
Para muitos estudiosos, Dom Quixote é um marco entre a linha tênue que existe entre a sanidade e a loucura. Acima disso, marca a importância da insanidade em tempos monótonos. Acreditando em seu próprio romance de cavalaria, Dom Quixote consegue mudar sua própria vida.
O personagem acreditou por muito tempo que esses romances de cavalaria eram mais importantes do que sua própria vida, de que sua realidade não valia a pena ser vivida, apesar de todo o luxo e bem-estar que podia ter àquela época, ainda não valiam a emoção de viver livre e plenamente.
O companheirismo de Sancho Pança, que permaneceu ao lado de Dom Quixote mesmo sabendo que suas ilusões não eram reais, também foi motivo de inspiração para diversos escritores. Afinal, onde estaria o herói sem seu fiel escudeiro? O verdadeiro herói pode ser tanto quem toma a frente, como quem está lá para apoiar e proteger, independente de tudo.
Enfim, Dom Quixote leu e compreendeu as façanhas dos livros de cavalaria como a única possibilidade de apreender o mundo. E quando o mundo não correspondia, era-lhe necessário corrigi-lo, para que a única leitura possível, de acordo com os ideais da nobre cavalaria, fosse mantida. O notário que testemunhou os últimos momentos de Don Quixote afirmou: vimos que ele morreu com uma calma e uma maneira nunca vista em nenhum cavaleiro descrito nos livros de cavalaria. Alonzo Quijano, o Bom, morreu em paz após ter deixado a incerteza da realidade, visitado a loucura da certeza, e, finalmente, ter-se resignado ao fato de que qualquer abordagem da realidade é sempre uma construção. Quer dizer, não há uma realidade última, um mito único.
Miguel de Cervantes pertence à tradição intelectual de Erasmo de Roterdam, uma vela rapidamente apagada pelos frios e dogmáticos ventos da Contra-Reforma, cujas obras foram expurgadas pelo anátema da Inquisição, e cujo testamento permanecerá um segredo.
Dom Quixote deambula pelo universo de Erasmo de Roterdam no qual qualquer verdade é suspeita, e tudo banha na incerteza. E o romance, tal como o apreendemos, é o resultado do encontro da sabedoria de Erasmo de Roterdam com a loucura de Dom Quixote. Ao renunciar a um mito fundador, Miguel de Cervantes anuncia também, com séculos de avanço, certos propósitos quânticos em relação à apreensão da realidade, bem como alguns pressupostos psicanalíticos relativos às funções dos mitos, à realidade psíquica, à constituição do psiquismo, e à construção do delírio como tentativa de cura. Dom Quixote é curado, recordemos, quando, aliviado, compreende que não há realidade a apreender: o romance nos incomoda por ser de uma atualidade desconcertante.
Dom Quixote não se limita a exprimir o nascimento do romance moderno. Ele mostra, também, que a realidade só pode ser aproximada quando renunciamos a defini-la de uma vez por todas. Através de seu Dom Quixote, Miguel de Cervantes ultrapassa o sabido e transgride, no sentido de uma verdade até então pensada como sagrada e como garantia de um saber (e, por conseguinte, de um possível controle) sobre o mundo. A transgressão produz momentos de virada sem que exista, evidentemente, uma transgressão última, o que equivaleria a recriar o mito de um conhecimento absoluto. Que toda ciência deve estar sempre aberta para questionamentos e revisões é uma ideia cara tanto a Sigmund Freud, quanto a Karl Popper.

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