Édipo é, sem dúvidas, um dos mais conhecidos personagens da mitologia grega. Entretanto, a maior parte das pessoas conhece apenas uma pequena parcela de sua longa história. Surgindo nos primórdios da literatura helênica, citado inicialmente por Homero na llíada e Odisseia, o lendário rei de Tebas atingiu sua versão mais formidável nas peças do dramaturgo Sófocles. Posteriormente, foi revivido em Roma pelo filósofo Sêneca e pelo poeta Estácio, passando neste processo por algumas mudanças. Muito depois, ganhou ares de modernidade na psicanálise de Freud, dando origem à famosíssima síndrome que leva seu nome. Mas podemos ver em Édipo fenômenos psicológicos que vão além do desejo inconsciente pela própria mãe destacado pelo pai da psicanálise; o rei mitológico é também a manifestação literária da ignorância voluntária, do luto, da lealdade e do ódio contra aqueles que amamos.
A história básica de Édipo e sua família é aquela escrita primeiramente por Sófocles em suas três peças tebanas, começando no Édipo Rei. Nesta peça, a narrativa inicia-se já no meio dos acontecimentos: Édipo é o rei da cidade-Estado grega de Tebas, tendo sido aclamado monarca após livrá-la da Esfinge, monstro terrível que a assombrava. O rei anterior de Tebas era Laio, que fora supostamente morto em uma estrada por um grupo de bandidos algum tempo antes da chegada de Édipo. Édipo casara-se com Jocasta, viúva de Laio, com ela tendo vários filhos. No início da peça, Tebas está sendo assolada por uma epidemia devastadora, e Édipo descobre que a peste é uma punição divina pelo fato de o assassino de Laio nunca ter sido encontrado e punido. Édipo se propõe a solucionar este problema. Ele pede ajuda para Tirésias, o profeta cego, que relutantemente revela que Édipo é o próprio criminoso que procura. O rei, porém, se recusando a acreditar nisso, e sugerindo que Tirésias havia sido subornado para acusá-lo, zomba de sua cegueira. Ao fim da discussão, como que prevendo o fim da trama, o profeta responde que Édipo é o verdadeiro cego.
Mais tarde, Édipo ouve de sua esposa Jocasta que uma antiga profecia dizia que Laio seria morto pelo próprio filho; entretanto, ele fora morto por bandidos em uma encruzilhada. Édipo fica perturbado com essa informação, e revela ser filho de Políbo, rei de Corinto. Porém, como uma profecia dizia que um dia ele mataria seu pai e dormiria com sua mãe, optou por fugir de casa. Na estrada para Tebas, encontrou uma carruagem que queria força-lo a abrir caminho, e, num confronto contra os viajantes, matou todos menos um, incluindo alguém compatível com a descrição de Laio. Porém, Édipo acredita que aquele homem que matou não poderia ser Laio, já que o antigo rei fora morto por vários bandidos, e não por um só homem.
Em outro momento, um mensageiro chega de Corinto para relatar a morte de Políbo, pai de Édipo. Surpreendentemente, Édipo fica exultante com esta notícia. Agora que seu pai havia morrido, ele não poderia ser seu assassino, desmentindo metade da profecia. A outra metade, a de que ele dormiria com sua própria mãe, ainda o preocupava. Para aliviá-lo, o mensageiro revela que a esposa de Políbo, Mérope, não era a verdadeira mãe de Édipo. Na realidade, muitos anos antes, um pastor de Laio levara uma criança desconhecida para uma montanha, e a entregou a outro pastor, ordenando que se livrasse dela. Este segundo pastor entregara a criança para Políbo e Mérope, que a criaram como se fosse seu filho, e o nomearam Édipo. Neste momento Édipo começa a suspeitar da verdade. Ele convoca aquele pastor que levara o bebê Édipo para a montanha, e o interroga. A contragosto, o pastor revela que aquela criança (Édipo) era o próprio filho de Laio e Jocasta, abandonado pelos pais para impedir que a profecia de que Laio seria morto pelo próprio filho se concretizasse. Coincidentemente, este mesmo pastor era o único sobrevivente da carruagem de Laio, e confirma que o rei fora morto não por vários bandidos, mas por um único viajante: o próprio Édipo.
Só neste momento, após lutar contra tantas evidências, é que Édipo aceita a realidade: tentando fugir da profecia e afastando-se dos seus pais falsos, acabou por matar seu verdadeiro pai, Laio, e dormir com sua verdadeira mãe, Jocasta. Horrorizado e enlouquecido, Édipo procura a mãe-esposa a fim de matá-la, mas ela já havia se enforcado em seu quarto. Em desespero, remove um broche do vestido de Jocasta, e com ele, arranca os próprios olhos.
A narrativa mais conhecida sobre Édipo termina neste ponto, embora Sófocles tenha escrito mais duas peças. Édipo em Colono começa com Édipo na cidade de Colono, junto a sua filha Antígona, tendo sido expulso de Tebas pelo seus filhos e seu cunhado. Lá, ele recebe a notícia de que seus dois filhos homens com Jocasta, Etéocles e Polinices, estão em guerra. O mais novo, Etéocles, roubara o trono de Tebas do irmão mais velho, e este se preparava para recuperá-lo à força com a ajuda da cidade de Argos. O resultado do conflito seria determinado por um único fato: onde Édipo seria enterrado após morrer. Se em Argos, Polinices venceria; se em Tebas, Etéocles. Édipo fica revoltado com os filhos, que o abandonaram ao exílio, e agora se preocupavam apenas com seu enterro não pelo dever filial, mas por desejo pelo poder. Ele amaldiçoa seus filhos a se mataram reciprocamente no campo de batalha, como punição por o terem desprezado. Édipo abraça a morte voluntariamente e é enterrado em Colono, selando o destino fatal dos dois filhos, que de fato morrem pela mão um do outro. Antígona trata sobre o enterro destes filhos, e os conflitos gerados no processo.
Sófocles, porém, não foi o único a escrever sobre Édipo. O filósofo estoico Sêneca, um romano, escreveu outra peça sobre Édipo no século I depois de Cristo. A narrativa é semelhante à de Sófocles, com algumas diferenças. Na obra romana, Édipo é muito mais aberto à ideia de ser o assassino de Laio, estando aflito desde o começo da peça por essa possibilidade, diferentemente de sua versão em Sófocles, que a refuta veementemente, mesmo quando ela já parece inegável. Ao final, Édipo não usa um broche, mas arranca seus olhos com as próprias mãos a fim de morrer de forma lenta e sofrida, uma punição para seus crimes. Jocasta se suicida após vê-lo mutilado, e não antes, como em Sófocles. A continuidade da história foi revista por outro romano, o poeta dramático Estácio, algumas décadas depois de Sêneca. A Tebaida conta a história dos Sete Contra Tebas, ou seja, a guerra civil entre os filhos de Édipo, Etéocles e Polinices. Narra com grandes detalhes a fúria de Édipo após seu exílio. Diferentemente da versão de Sófocles, Édipo não é exilado em outra cidade nem acompanhado por sua filha Antígona, mas permanece em um local escuro e abandonado o qual o Sol nunca toca. Ele invoca as Fúrias, deusas da vingança, e pede uma morte cruel e violenta aos filhos, como punição por o terem desprezado no momento em que mais precisava de apoio. Uma diferença essencial é o papel de Édipo na morte dos filhos. Em Édipo em Colono, os filhos já estão em conflito desde o início, e Édipo apenas impede que eles façam as pazes, culminando na morte deles. Na Tebaida, os irmãos estão em paz, e a maldição de Édipo incute neles uma ambição mortífera, levando-os à traição, à guerra e à morte não só deles, mas de centenas de pessoas inocentes. A própria Jocasta permanecia viva até o fim da guerra, cometendo suicídio apenas após ver os filhos mortos. Durante tudo isso, Édipo parece exultante, participando de banquetes para celebrar sua vingança e lançando duras maldições. Mas de forma surpreendente, depois de tanto ter lutado para ver os filhos trucidados, quando os vê caídos ensanguentados na terra, perde sua firmeza, desaba, e os abraça aos prantos. Procura uma espada para tirar a própria vida, mas é impedido pela filha. Lamenta não ter mais os olhos para arrancar, e se resigna a continuar vivendo em sofrimento, consciente de ter matado não só o pai, mas os filhos, uma punição ainda pior que a morte.

Um dos mais tradicionais sebos do país, com uma loja física de três andares e um acervo de mais de 150.000 títulos.
Fundado em 1999.
Que síntese perfeita
Interessante!
Sempre me encantou a história de Edipo e conhecia a versão de Edipo Rei. Muito interessante saber que há mais versões dessa peça, sendo todas elas fascinantes e reveladoras desse complexo jogo de disputas de amor, ódio e poder numa mesma família. E o complexo descrito na psicanálise também me intriga muito.
Adorei!
Adorei o conteúdo. Conseguiu informar muitos acontecimentos históricos e importantes.
Adorei o conteúdo!
Show!
Não conhecia a história de Édipo… muito interessante!