O Sonho Americano é um conceito central na cultura dos Estados Unidos, baseado na ideia de que, qualquer indivíduo, por meio do trabalho árduo, da determinação e do mérito, pode alcançar o sucesso e a prosperidade, independentemente de sua origem. Esse conceito tem sido um dos pilares da identidade do país desde sua fundação.
O American Dream, como é conhecido em inglês, fundamenta-se em alguns princípios essenciais. Um deles é a igualdade de oportunidades, segundo a qual todos deveriam ter as mesmas chances de alcançar o sucesso, independentemente de classe social, origem ou status. Outro é a mobilidade social, que pressupõe que, com esforço e dedicação, qualquer pessoa pode melhorar de vida e ascender na sociedade.
No início do século XX, o Sonho Americano ganhou força como uma promessa de prosperidade e ascensão social. O rápido crescimento industrial, a expansão das grandes cidades e o desenvolvimento econômico consolidaram essa ideia. Durante a chamada Era do Jazz, o Sonho Americano assumiu uma nova forma, associada ao consumismo, ao luxo e à ascensão financeira rápida. O mercado de ações estava em alta, e histórias de milionários que enriqueceram do dia para a noite reforçava a crença no sucesso ilimitado.
Por meio da literatura, é possível analisar esse conceito. Em 1931, James Truslow Adams publicou The Epic of America, no qual definiu o Sonho Americano como:
“uma vida melhor, mais rica e mais plena para todos, com oportunidades para cada um de acordo com suas habilidades e realizações”.
No entanto, esse ideal também revelou seu lado corrompido: muitos enriqueceram por meios ilegais, como no caso do contrabando de álcool durante a Lei Seca.
F. Scott Fitzgerald foi um dos primeiros autores a explorar por meio da ficção, a ascensão social vinculada ao Sonho Americano, evidenciando tanto suas promessas quanto suas contradições no clássico O Grande Gatsby.
Publicado em 1925, O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, é um dos romances mais emblemáticos da literatura americana. Ambientado nos anos 1920, o livro retrata a ascensão e a decadência de Jay Gatsby, um homem que constrói sua fortuna na esperança de reconquistar seu grande amor, Daisy Buchanan. A narrativa, contada em primeira pessoa, se desenrola sob a perspectiva de Nick Carraway, que relembra os acontecimentos do verão de 1922.
Recém-chegado a West Egg, uma área da ilha de Long Island ocupada por novos-ricos, Nick Carraway é o narrador e protagonista secundário de O Grande Gatsby. Jovem da classe média alta, Nick se muda para West Egg com o objetivo de trabalhar no mercado financeiro e descobre que seu vizinho é o enigmático Jay Gatsby, um milionário misterioso conhecido por suas festas extravagantes, que semanalmente atraem a alta sociedade nova-iorquina à sua mansão.
A divisão entre East Egg e West Egg é um dos elementos centrais do romance, simbolizando a separação entre dois tipos distintos de riqueza e status social nos Estados Unidos do início do século XX.
East Egg representa a velha riqueza, composta por famílias aristocráticas que herdaram fortunas ao longo das gerações. Seus moradores nasceram ricos e mantêm um senso de superioridade sobre aqueles que adquiriram dinheiro recentemente. Já West Egg abriga os chamados novos-ricos, pessoas que construíram sua própria fortuna, seja por meio de negócios legítimos ou de atividades ilegais. No entanto, seus moradores não possuem o refinamento nem o prestígio social da elite de East Egg, sendo frequentemente vistos como “vulgares” e “sem classe”. O estilo de vida em West Egg é mais extravagante e ostentoso, refletindo a tentativa de seus habitantes de provar que também pertencem à elite. Jay Gatsby é o exemplo mais emblemático desse grupo: apesar de ter conquistado uma grande fortuna, nunca foi aceito pelos aristocratas tradicionais.
Gatsby é o retrato do self-made man, o homem que constrói sua própria fortuna e ascende socialmente. Nascido como James Gatz, filho de uma família humilde, ele rejeita suas origens e se recria como Gatsby, buscando não apenas sucesso financeiro, mas também a realização de um sonho pessoal: reconquistar Daisy Buchanan.
A relação entre Daisy e Gatsby é um dos pontos-chave do romance. Eles se apaixonaram anos antes dos eventos narrados no livro, quando Gatsby ainda era um jovem militar sem dinheiro. No entanto, devido à sua condição financeira modesta, ele não era considerado um bom partido para Daisy, que vinha de uma família rica e tradicional. Enquanto Gatsby estava na guerra, Daisy se casou com Tom Buchanan, um aristocrata de East Egg, garantindo a manutenção de seu status social. Tom, é rico e arrogante, e representa a “velha riqueza” e vê Gatsby como uma ameaça e um impostor, desprezando-o principalmente por sua origem humilde e sua forma de adquirir riqueza.
Para Gatsby, Daisy simboliza mais do que um amor do passado; ela representa o Sonho Americano, o objetivo inalcançável que ele acredita poder conquistar com riqueza. Suas festas grandiosas eram uma tentativa de atrair a atenção de Daisy e reconquistar o status que ele achava necessário para ser digno dela. Essas celebrações, cheias de luxo e convidados, serviam para construir sua identidade. Gatsby não buscava apenas prazer superficial, mas a chance de reconstruir seu passado com Daisy, acreditando que sua riqueza e influência social seriam as chaves para isso, embora sua busca estivesse cada vez mais distante da realidade.
O enredo ao longo do romance se desenvolve a partir da medida que a história de Jay Gatsby, seu amor por Daisy e os conflitos sociais e pessoais se intensificam.
Nick Carraway, o narrador, continua a relatar os eventos que se passam entre ele e os outros personagens. Gatsby, que continua a dar suas festas extravagantes, finalmente tem a oportunidade de se reunir com Daisy. A relação deles é reacendida, e Gatsby sonha em reviver o amor que tiveram, tentando, de todas as maneiras, reconstruir o passado e alcançar uma perfeição ilusória.
A história se aproxima de uma crise, com a inevitabilidade do confronto entre as realidades dos personagens e seus sonhos. A tensão entre Gatsby e Tom culmina em um confronto direto. O “sonho americano” que ele busca, cheio de promessas de sucesso e felicidade, é progressivamente corroído pela realidade de seu amor não correspondido e pelas barreiras sociais intransponíveis. Apesar de sua riqueza e esforços, ele nunca conquista verdadeiramente seu lugar na elite e nem o amor de Daisy. Seu destino culmina em um desfecho trágico, distante do final que ele tanto desejava, tanto para sua vida quanto para sua história com Daisy.
Dessa forma, F. Scott Fitzgerald, apresenta uma crítica contundente ao conceito do Sonho Americano, expondo suas contradições e a ilusória promessa de prosperidade e felicidade. A história de Jay Gatsby simboliza tanto a esperança quanto a desilusão que acompanham a busca pelo sucesso e pela ascensão social.
O Grande Gatsby é uma crítica contundente ao Sonho Americano, mostrando que, embora na teoria, o ideal de sucesso e felicidade seja promovido como acessível a todos, na prática ele é, de fato, uma construção ilusória e muitas vezes inatingível. No romance, Gatsby, o protagonista, simboliza essa busca incansável pelo sucesso e pela realização de um sonho idealizado, acreditando que riqueza, status e o amor de Daisy podem proporcionar a ele uma felicidade plena.
No entanto, a sociedade retratada no romance está dividida entre os que herdaram a riqueza, como Tom e Daisy Buchanan, e os que a conquistaram, como Jay Gatsby. Fitzgerald sugere que o status social é um fator intransponível, e que o esforço individual muitas vezes não é suficiente para superar barreiras sociais profundamente enraizadas. Embora Gatsby tenha adquirido sua fortuna de maneira independente, os meios por trás de sua riqueza, revelados ao longo da narrativa, não foram legais, mas sim ilícitos, através do contrabando de álcool durante a Lei Seca.
Essa contradição é central na crítica de Fitzgerald ao Sonho Americano. Gatsby recorre a meios ilegais para tentar entrar na alta sociedade, enquanto os ricos de nascimento, como Tom e Daisy, mantém seu status sem esforço algum. A diferença de tratamento entre eles expõe as limitações do Sonho Americano, mostrando que, para alguns, o acesso ao topo da sociedade permanece fechado, independentemente de seus esforços.
O comportamento da elite, representada por Tom e Daisy, é retratado como desdenhoso e irresponsável. Eles vivem em um mundo de privilégios, onde suas ações, como negligência e abuso de poder, não têm consequências. Em contraste, pessoas como Gatsby, que buscam ascender e provar seu valor, são destruídas, como é evidenciado pelo trágico desfecho de sua história no final do romance. Isso reflete uma crítica à desigualdade estrutural que impede a verdadeira mobilidade social, sugerindo que a sociedade favorece os já privilegiados, não importa o quanto se esforce ou quanto alcance alguém no caminho do sucesso.
Portanto, a crítica de O Grande Gatsby à desigualdade social e à construção ilusória do Sonho Americano continua extremamente relevante nos dias atuais. Embora o contexto histórico tenha mudado, muitas das questões levantadas por Fitzgerald ainda ressoam em nossa sociedade contemporânea.
Hoje, a disparidade entre as classes sociais permanece um problema central. A mobilidade social — ou a falta dela — é uma questão importante. Embora muitas pessoas acreditem que o sucesso esteja ao alcance de todos, em realidade, a estrutura social ainda favorece aqueles que já estão em uma posição privilegiada, seja por meio de herança, educação de elite ou conexões familiares. O “sonho” de ascender socialmente por meio do trabalho árduo e da perseverança, embora atraente, é frequentemente uma ilusão, como mostrado pela trajetória de Gatsby. Assim, a busca incansável pelo sucesso financeiro, frequentemente impulsionada pelo desejo de aprovação e validação social, pode se tornar um ciclo vazio, que não leva à verdadeira realização pessoal ou felicidade.
O comportamento de personagens como Tom e Daisy Buchanan, que representam a elite privilegiada, é também uma crítica que ainda se aplica a muitos contextos atuais. A ideia de que as elites frequentemente permanecem intocadas pelas consequências de seus atos, enquanto os mais desfavorecidos pagam um preço muito mais alto, é uma realidade que continua a se manifestar em questões de justiça social, econômica e política.
A busca por alcançar os próprios desejos e melhorar a vida social continua sendo um desafio, marcado por um estigma quase absoluto, onde as classes mais baixas parecem impossibilitadas de ascender, permanecendo no mesmo status. Enquanto isso, as classes mais altas se distanciam, perpetuando a desigualdade social. Esse sistema revela suas falácias, pois não favorece a todos igualmente. A crítica, ainda válida hoje, nos convida a refletir sobre o verdadeiro significado de “sucesso” e o que estamos dispostos a sacrificar para alcançá-lo.

Oi, sou a Amanda! Tenho 24 anos, estudo Letras com habilitação em alemão pela Universidade de São Paulo e sou uma entusiasta apaixonada por literatura e arte. Me perco nos clássicos russos, alemães e ingleses, encontro beleza na música e, quando se trata de nossa literatura brasileira, Clarice Lispector é meu porto seguro. Aqui no blog, divido minhas reflexões e descobertas literárias e afins.