O tema dos refugiados se faz muito presente na atualidade. Com a grande quantidade de guerras civis e confrontos que ocorrem por todas as partes do mundo, não é surpreendente que existam tantas pessoas deixando suas pátrias em busca de melhores condições de vida e, às vezes, em busca de uma chance de viver. No meio de 2020, havia pelo menos 26 milhões de refugiados em todo o mundo, originados em sua maioria da Síria, Venezuela, Afeganistão e Mianmar.
E, embora o termo refugiado só possa ser precisamente aplicado após a formação dos Estados Nacionais, a história de pessoas abandonando seus lares devido à violência e viajando para terras distantes é extremamente antiga. Podemos citar, por exemplo, a Diáspora Judaica, que se deu em diversos momentos, dentre os quais as guerras romano-judaicas, quando Jerusalém foi destruída e seus habitantes dispersados pelo futuro imperador Tito.
Segundo esses mesmos romanos que produziram em outros povos muitos refugiados, porém, sua própria civilização tivera sua origem em um refugiado, o lendário herói Enéias. De fato, o refúgio é um tema marcante no poema épico “Eneida”, escrito por Virgílio entre 29 e 29 A.C..
Segundo o poema, a história de Roma começa com a destruição de Tróia, tema narrado por Homero na Ilíada e na Odisséia e continuado por Virgílio muitos séculos depois. Após o saque e aniquilação da cidade pelas tropas gregas, apenas alguns poucos troianos escaparam com suas vidas. Para essas pessoas, tudo que elas conheciam foi destruído do dia pra noite, e elas foram forçadas a assistir à morte de seus conhecidos e à destruição de sua casa, e, em seguida, a fugir ou morrer. Certamente foi um enorme trauma para os sobreviventes de Tróia. O horror desses fatos é demonstrado com maestria por Virgílio, nos fazendo sentir falta de algo que sequer conhecemos. Seja como for, Eneias, parente do rei de Tróia, sobrevive ao massacre e foge junto a seu pai e filho bem com alguns concidadãos pelo mar com um destino singular: levar em segurança os símbolos divinos de sua nação, os Penates, e fundar uma nova civilização em uma terra desconhecida. Ou seja, pesava sobre Enéias não só o passado da destruição de Tróia, mas também o fardo de seu futuro. O protagonista deste poema milenar não é nada mais que um refugiado, se tomarmos a liberdade de aplicar uma definição mais moderna.
Após anos de viagens e sofrimentos, Enéias chega à longínqua Hespéria, ou, como conhecemos hoje, Itália. Lá, funda a cidade de Lavínio, de onde viriam futuramente os romanos. Mas sua chegada não é bem-vista por todos aqueles que chamavam a península de casa e, embora o rei local Latino tivesse recebido Enéias e lhe oferecido a mão de sua filha Lavínia em casamento, outros locais como a esposa de Latino, Amata, e o rei Turno, voltam-se contra o forasteiro em uma sangrenta guerra. Até a recusa em aceitar refugiados é um tema antigo e já revelado pela Eneida.
Este é um tema que persegue a humanidade há séculos, e parece longe de ter um fim.
Fontes:
https://www.unhcr.org/globaltrends2019/
Katz, Steven T., ed. 2006. The Cambridge History of Judaism. Vol. 4, The Late Roman-Rabbinic Period. Cambridge, Reino Unido: Cambridge University Press.

Um dos mais tradicionais sebos do país, com uma loja física de três andares e um acervo de mais de 150.000 títulos.
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