A dualidade entre o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde

O livro “Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” foi escrito pelo novelista, poeta e escritor Robert Lewis Balfour Stevenson e publicado em 1886.

A narrativa gira em torno da investigação do advogado Dr. Gabriel Utterson acerca de um criminoso e assassino misterioso, Sr. Edward Hyde, e sua relação com o Dr. Henry Jekyll, um médico respeitável. No decorrer da história, a medida que o Sr. Edward Hyde comete mais crimes, o Dr. Henry Jekyll começa a agir de maneira cada vez mais estranha, até que simplesmente desaparece. A investigação do Dr. Gabriel Utterson atinge a terrível verdade sobre a natureza do Sr. Edward Hyde: ele é na verdade um alter ego do Dr. Henry Jekyll, resultado de uma poção que o transforma em outra pessoa e o permite ceder aos seus piores impulsos sem medo de ser punido.

Trata-se, enfim, de uma novela a sobre a dualidade do homem, sua capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal.

A novela tornou-se conhecida por sua representação vívida do fenômeno de múltiplas personalidades, quando em uma mesma pessoa existem tanto uma personalidade boa quanto uma personalidade má, ambas diversas uma da outra.

A influência da novela foi tal que se tornou parte do jargão inglês com a expressão “Jekyll e Hyde“, utilizada para mencionar uma pessoa que age de forma moralmente diferente dependendo da situação em que se encontra.

No mais, foi um sucesso imediato, sendo um dos livros mais vendidos do autor. Adaptações teatrais começaram a ser encenadas em Londres um ano após seu lançamento, e a partir de então o livro inspirou a realização de diversos filmes e peças. O aclamado autor de literatura de terror Stephen King considerou a obra como um dos três grandes clássicos do gênero, sendo os outros dois Frankenstein e Drácula.

Ressalta-se, ainda, que a inspiração na situação da personalidade dupla rendeu muitos outros personagens no mundo inclusive dos quadrinhos. Alguns dos heróis e vilões mais queridos pelos fãs dos quadrinhos foram abertamente inspirados na obra como, por exemplo, o Hulk e o Duas-Caras.

Não obstante, a ideia de Robert Lewis Balfour Stevenson de que o mal pode se esconder dentro de pessoas comuns não foi uma invenção do autor, e sim uma percepção de um fenômeno humano, retratado com nitidez por alguns filósofos.

O livro “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, de Hannah Arendt, publicado em 1963, demonstra com clareza este conceito. Na obra, a filósofa traça, a partir de dados históricos e seu testemunho do julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista e arquiteto do holocausto, um perfil psicológico do criminoso de guerra. Ela conclui que Eichmann não demonstrava nenhuma doença psiquiátrica ou transtorno de personalidade, era muito agradável para com todos, principalmente seus amigos e familiares, e sequer demonstrava ódio pelos judeus que havia enviado para a morte. Ele teria agido de forma a agradar seus superiores, se conformar com a organização da qual participava e cumprir as leis de seu país, tendo convicção de que agia da forma correta.

O Dr. Henry Jekyll, o Sr. Edward Hyde e o Adolf Eichmann representam o mesmo conceito psicológico, com diferentes graus de sutileza. O médico se transforma em monstro, abandonando a forma humana para cometer atrocidades; o oficial nazista nunca deixa de ser homem enquanto comete atrocidades ainda maiores. Ambos escancaram esta dualidade humana, este potencial destrutivo que se esconde atrás de rostos mundanos.

O final da história é uma confissão do Dr. Henry Jekyll sobre seu experimento. É na confissão do médico que nos confrontamos com a dualidade humana e nos deparamos com o terror que há em nós, pois, na verdade, pode-se dizer que o homem não é autenticamente um, mas sim dois. Lidar com essa dualidade causa grande arrepio, uma vez que existem situações na vida cotidiana em que a dualidade se torna nitidamente visível.

Resta-se, enfim, evidente a limitação enquanto seres humanos: ainda que fosse factível emplacar o bem do mal, continuaríamos lidando com a complexidade de, por exemplo, quando beber a fórmula para ser o Dr. Henry Jekyll – bom e justo – e de quando ser Mr. Edward Hyde – mal e injusto.

De fato, é possível destrinchar os opostos humanos e, por mais medo que isso nos gere, devemos aceitar que nossa complexidade humana envolve aprender a lidar com nossa natureza em suas diversas facetas, seja ela boa ou ruim, justa ou injusta.

3 Replies to “A dualidade entre o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde”

  1. Que belo texto!

  2. Andrea Cotait says: Responder

    Adorei!

  3. Claudio Pereira says: Responder

    Muito bem escrito.

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