[AVISO: o texto a seguir tem como objetivo informar sobre o passado dos hospitais psiquiátricos, e não sobre o presente. Muito mudou com o tempo, e hoje a maioria dos hospitais psiquiátricos segue padrões humanizados de tratamento, fruto de muitos anos de luta de diversos setores da sociedade. As práticas aqui descritas não são mais utilizadas.]
Os maus-tratos com os considerados “loucos”, seja dentro ou fora dos hospícios, foram por muito tempo fatos corriqueiros na história da humanidade. Porém, foi dentro dos manicômios que esse tratamento mostrou sua faceta mais dramática e violenta, fato que levou no Brasil dos anos 90 à Luta Antimanicomial, formada por profissionais da saúde e parentes de pessoas com doenças mentais. Foi um processo que visou sempre o tratamento humanizado das pessoas com doenças mentais, e em alguns momentos até a eliminação dos manicômios.
A forma como as pessoas com doenças mentais foram tratadas variou muito no decorrer da história humana. Os gregos acreditavam que as doenças mentais eram causadas por desbalanços nos humores corporais, que assim afetavam a mente de forma negativa. Os romanos propuseram que sentimentos fortes podiam inclusive levar a doenças físicas, um conceito curiosamente moderno. Segundo a lei romana, a loucura devia amenizar a punição de um crime. Sendo assim, os greco-romanos defendiam o tratamento humano dos considerados “loucos”, e não haviam hospícios na época.
Já na Idade Média, as doenças mentais foram vistas como influências demoníacas. Um dos pecados capitais do cristianismo medieval era a acedia, uma espécie de apatia e melancolia que afetava monges em isolamento e os tornava indiferentes ao mundo, possivelmente uma forma de depressão vista pela ótica religiosa. Assim, a loucura muitas vezes era vista como uma fraqueza de espírito, e aqueles considerados loucos eram tratados quase como criminosos.
O primeiro manicômio europeu surgiu no século XIV, o Bethlem Royal Hospital de Londres, ou Bedlam. Fundado como um hospital geral, o Bedlam recebeu 6 pacientes psiquiátricos, seus primeiros, em 1403. Estes 6 iniciais provavelmente foram mantidos algemados e acorrentados, segundo relatórios da época. A contenção mecânica devia então ser uma prática comum para os pacientes mais problemáticos, juntamente com o confinamento solitário, embora a maior parte vagasse livremente pelo hospital. O hospital logo tornou-se completamente dedicado aos “lunáticos”, como eram chamados pelas autoridades. As condições sanitárias eram precárias: o esgoto frequentemente inundava os corredores, os pacientes eram mantidos em meio às próprias fezes (e às vezes as arremessavam nos funcionários e visitantes) e a fome era generalizada, visto que o hospital dependia grandemente de doações para alimentar os pacientes. Eventualmente, para arcar com as despesas, os dirigente do Bedlam começaram a permitir visitas pagas de pessoas não relacionadas aos pacientes. Supostamente, as visitas serviriam um propósito moral: mostrar como os vícios e paixões podiam deturpar a mente. Na verdade, as visitas serviam apenas para divertir os visitantes, que se regozijavam em observar e provocar os doentes mentais. A administração tentava angariar visitas de pessoas de “notáveis e de qualidade”, ou seja, que poderiam fornecer doações mais avantajadas para a instituição.
Com a deterioração e superlotação do edifício original, um novo Bedlam foi construído em 1675, mais distante do centro da cidade, maior mais imponente, adornado com estátuas representantes da melancolia e da loucura. O prédio novo, porém, mostrou-se demasiadamente custoso para ser mantido, e lentamente degenerou-se em uma “louca carcassa com nenhuma parede ainda vertical” (Porter, 1997). Um novo prédio ainda maior foi então construído como substituto do segundo em 1815, agora contando também com uma ala para os criminalmente insanos financiada pelo Estado.
Como mencionado, os dirigentes do Bedlam permitiam visitas pagas. Embora tal prática deva ser veementemente criticada, ela servia ironicamente como algo positivo: ao permitir que pessoas externas vissem a condição do hospital, os abusos mais extremos eram coibidos. Quando, em 1770, as visitas passaram a ser proibidas, uma nova fase de abusos mais intensa iniciou-se, com pacientes sendo mantidos nus e, em um caso específico, um paciente sendo mantido por mais de 10 anos acorrentado pelo pescoço a um poste. Uma investigação foi conduzida pelo Parlamento Inglês e o hospital passou por mudanças, sendo movido em 1930 mais uma vez para um novo local, onde permanece até hoje.
Atualmente, o Bethlem Royal Hospital é um hospital moderno, adotando as práticas modernas da psiquiatria e do tratamento humanizado (embora sua imagem tenha sido manchada por algumas mortes recentes de paciente submetidos a contenção física).
No próximo post, trataremos sobre o Hospital Colônia de Barbacena, um hospício brasileiro também famoso por seu passado de abusos.
Referências:
https://www.jstor.org/stable/1045999?seq=1
Porter, Roy. History Today. 1997;47(10):41–8.
Andrews, Jonathan. Bedlam Revisited: A History of Bethlem Hospital c.1634 – c.1770 [PhD thesis]. London: Queen Mary and Westfield College, London University; 1991.

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