Escrita há 2300 anos, a República de Platão persiste como um dos mais influentes estudos filosóficos da humanidade. O livro trata sobre uma cidade ideal, Kallipolis, símbolo perfeito da justiça, idealizada por Sócrates.
A forma do texto é o diálogo socrático, ou seja, um diálogo em que o fundador da filosofia ocidental, Sócrates, questiona seus diversos interlocutores sobre temas importantes, questionando suas definições. O modelo socrático consiste justamente em fazer perguntas, e não necessariamente chegar em respostas. Sócrates gostava de se comparar com uma parteira, que ajudaria os outros a dar a luz às ideias, mas que não podia ter filhos próprios.
Este diálogo da República se passa em Atenas, mais especificamente no Porto de Pireu próximo à cidade, e conta, além de Sócrates, com vários personagens distintos. O principal tema? A justiça. Tudo começa com uma simples pergunta de Sócrates: o que é, afinal, justiça? Cada personagem oferece uma resposta, e o filósofo as explora. Até que Sócrates resolve resolver a questão da seguinte forma: como é mais fácil entender conceitos mais amplos do que conceitos mais específicos, faz sentido que, antes de definir-se o sentido estrito de justiça, defina-se o que seria uma cidade justa! Começa um longo debate sobre a justiça de uma cidade.
É preciso lembrar que, na Grécia antiga, a cidade era o centro da política, assemelhando-se mais a um país do que a uma cidade apenas. Sendo assim, a definição de Sócrates de uma cidade perfeita seria na verdade a descrição de uma civilização perfeita.
Nesta cidade, o filósofo dizia que as classes sociais seriam rígidas e fixas, sem possibilidade de ascendência. Seriam três classes: os produtores (agricultores e artesãos), os auxiliares (soldados) e os guardiões (políticos). Cada um respondia a uma parte da alma humana; os produtores representavam os apetites, desejos mais básicos e irracionais, os auxiliares representavam o espírito, a parte dos desejos superiores como a honra, e os guardiões a razão, que busca a verdade. E, dentre os guardiões, o mais importante era o rei-filósofo.
O rei-filósofo não é apenas um político, mas uma pessoa da mais alta sabedoria, que buscaria a verdade e a perfeição acima de tudo. Essa é uma das principais conclusões da República, que a cidade seja governança pelos filósofos, os homens verdadeiramente sábios, que não se interessariam pelo dinheiro ou pelo poder, mas pelo bem supremo.
A República não foi isenta de críticas. Na verdade, até hoje é vista como uma apologia anti-democrática, visto que prega pela submissão total de uma classe (produtores), que mesmo representando a maior parte da população, não teria voz alguma nos rumos se sua cidade. De fato, Platão declara com todas as palavras que a democracia está entre as piores formas de governo.
Mas nem sempre as críticas à Platão vieram do campo democrático. Por muito tempo, a República escandalizou as sociedades antigas ao pregar a participação da mulher na política. Visto que a divisão social da cidade perfeita não se baseava em gênero, mas em habilidades, mulheres e homens de iguais talentos poderiam exercer o mesmo grau de poder, caso fossem membros dos guardiões. Para a sociedade ateniense, em que as mulheres não eram sequer consideradas cidadãos, tal crença deve ter sido um grande choque. Não é à toa que Sócrates foi aprisionado e executado pelos seus compatriotas.
A República é um livro complexo que não pode ser abordado completamente em um texto curto. Ela ainda deixa muitas dúvidas, talvez mais do que respostas, como todo bom diálogo socrático.

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