O papel educador da poesia na Grécia Antiga

Não há dúvidas de que Homero foi o fundador da literatura grega: na verdade, seus poemas épicos Ilíada e Odisseia são as mais antigas peças da literatura ocidental. Porém, sua importância vai além disso. Mais do que fundamento da literatura ocidental, foram o fundamento da educação e do próprio pensamento gregos.

Os antigos utilizavam esses poemas como uma forma de ensinar. Isso é reconhecido tão cedo quanto por Platão em seus diálogos. Ele, porém, como veremos em breve, não poupava críticas a este método de ensino. Segundo Werner Jaeger (1888-1961), os poemas de Homero trazem o espírito do homem grego antigo, baseado na aretê (“virtude” ou “excelência”). Esse conceito é de difícil tradução justamente por englobar diversos sentidos. Primariamente, significa aquilo que é próprio de um ser: a aretê de um cavalo é aquilo que torna o cavalo excelente, a aretê humana torna o humano excelente. Isso incluía a honra, a habilidade marcial, a coragem, o respeito recebido pelos outros. Tanto a Ilíada quanto a Odisseia trazem este conceito nas figuras de seus personagens, como Aquiles, Agamenão, Telêmaco e Odisseu. São figuras altivas, honradas e nobres, vistas pelos antigos educadores gregos como um modelo a ser seguido pelos jovens. Além disso, os poemas trazem o relato mítico, eventos acontecidos no passado glorioso que deveriam servir de exemplo não só aos personagens da história, mas ao próprio leitor. Ensinam o respeito aos deuses e aos antepassados, bem como a busca pela glória na vida e após a morte. Daí a base educadora desses poemas, não no sentido de educação técnica como na escola moderna, mas de educação para viver com excelência segundo o modelo da época.

Mas por que ensinar por meio da poesia, por que escolher este modelo? Para Jaeger, o aprendizado de como agir bem poderia ser transmitido de três formas. A primeira seria a filosofia, que analisa os problemas com profundidade, mas que, por ser completamente teórica, carece da vividez da prática. A segunda seria a própria vivência cotidiana que, embora careça de grande reflexão, abunda em vividez. A poesia seria o meio termo entre essas duas formas: carrega mais vividez que a filosofia e mais reflexão que a prática. Seria, portanto, a forma ideal de ensino, e teria sido, portanto, escolhida pelos gregos.

Já Platão discordava do uso de Homero na educação, pelo menos na forma como isso era então feito. Como poderiam aqueles personagens falhos, cheios de vícios, iras e intemperanças servirem de modelo aos jovens? Por exemplo, ele criticava em sua República a demonstração exagerada de emoção de Aquiles ao perder o amigo Pátroclo, julgando que tal passagem devia ser suprimida do poema. E mais, perguntava o filósofo, como podiam os deuses serem retratados como possuidores das mesmas falhas, como quando Apolo desce do Olimpo com o “coração irado”? Certamente os deuses deviam ser representados como exemplo do mais puro bem, da virtude perfeita. Para Platão, embora a poesia tivesse o mesmo valor educativo, seu conteúdo devia ser cautelosamente avaliado para passar as mensagens adequadas aos jovens. Seus personagens deviam proceder com virtude, moderação e justiça, e não com vícios.

Mesmo discordando quanto à forma, é bem aceito que a poesia serviu como forma de ensino eficiente, trazendo à luz a tão importante filosofia grega, influente até o dia de hoje no pensamento do humano ocidental.

Fontes

Jaeger, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Editora Herder

Parry, Richard, “Ancient Ethical Theory”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = https://plato.stanford.edu/archives/fall2014/entries/ethics-ancient/.

Platão. A República. Tradução de Elísio Gama. Lisboa, 2005: Guimarães Editores.

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